Agenda 2030 da ONU: o empoderamento feminino no jornalismo

 

     Durante muitos anos, a atividade intelectual feminina foi negada. Vistas como inferiores física e intelectualmente, mulheres não eram vistas como capazes de exercer as mesmas funções profissionais dos homens. O jornalismo, um ofício de cunho intelectual, não era considerado lugar de ocupação para representantes do sexo feminino. A obrigação delas era ligada aos afazeres domésticos, à educação dos filhos e à subserviência aos seus respectivos maridos. Sem voz, sem poder de fala e de escrita, elas não poderiam jamais cogitar ocupar o cargo de um formador de opinião. Não podiam se enxergar capazes de pensar criticamente ou de questionar seu papel dentro da sociedade – esse era um direito que lhes era negado a partir do momento em que o acesso à educação era restrito ou até mesmo inexistente.

     Mas o mundo mudou. Se hoje as mulheres podem estudar e trabalhar, dispondo de maior autonomia, isso se deve aos anos de batalhas e reivindicações, com destaque para os movimentos feministas ao longo da história. No entanto, as conquistas não foram suficientes, e a luta continua. Em cargos de maior destaque, de chefia e de liderança, o número de mulheres ainda é inferior em relação aos homens.  Foi por esse e por outros motivos que os Estados-Membros da Organização das Nações Unidas (ONU) decidiram criar, no ano de 2015, a Agenda 2030. Para o alcance do desenvolvimento sustentável do planeta, 17 objetivos globais e suas respectivas metas foram traçados. Entre eles, há o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5, que visa ao empoderamento de todas as meninas e mulheres, e a meta 5.5, que pretende garantir a participação plena e efetiva delas e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública. 

     Como parte dos esforços de implementação destas ideias, houve a criação do “Pacto de Mídia: Dê um passo pela igualdade de gênero”. Este projeto quer aumentar o número de mulheres nos meios de comunicação, incentivando o empoderamento delas, para que sejam ocupantes da posição de líderes e para que sejam atuantes ativamente nas decisões dentro dos veículos de imprensa. A ONU Mulheres, por sua vez, objetiva criar parcerias com líderes de mídia internacionais, regionais e nacionais, para que se comprometam a defender as questões relativas ao gênero feminino por meio de divulgações de informações, quebrando estereótipos e preconceitos, de decisões editoriais e de práticas corporativas favoráveis às mulheres.  

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Você pode acessar a Agenda de Desenvolvimento Sustentável no link a seguir:

Confira os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 da ONU

1) Erradicação da Pobreza                                                                                        9)

2) Fome Zero e Agricultura Sustentável                                                                 10)

3) Saúde e Bem Estar

4) Educação de Qualidade

5) Igualdade de Gênero 

6) Água Potável e Saneamento

7) Energia Acessível e Limpa

8) Trabalho Descente e Crescimento Econômico

Jornalista Regina Pitoscia

     Avanços podem ser notados em alguns setores. A diferença salarial colocada em pauta nos dias atuais e a questão da maternidade tratada de formada mais natural, sem que seja um empecilho para a contratação da mulher ou para a promoção dela dentro do trabalho, são duas das práticas corporativas favoráveis às mulheres notadas por Regina Pistoscia, colunista do jornal Estadão. “Em muitas empresas, o fato de a mulher engravidar e ter um filho é considerado um problema, já que terá de se ausentar, pelo menos, quatro meses com a licença-maternidade. No meu caso, pude ficar seis meses quando tive meu filho, quatro da licença e mais dois meses de férias que tinha acumuladas”. No entanto, ela conta que se ausentar temporariamente do emprego sempre gera certa preocupação. “Será que vão manter o meu lugar? Mas não tive nenhum problema, reassumi normalmente minha função depois desse período, que já era de editora dos cadernos de finanças”.

    Regina conta que vê com frequência reportagens de economia e finanças, que é sua área de atuação, sobre temas relacionados às mulheres, como a diferença salarial em relação aos homens e o número reduzido de mulheres que estão no topo das empresas. “Isso gera questionamentos, discussões que tendem a aumentar a conscientização e reduzir a desigualdade”. Ela acredita que as mulheres estão cada vez mais alcançando o lugar que querem no mercado de trabalho. “Elas estão se impondo mais, reivindicando mais, cobrando mais das empresas”.

     

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Jornalista Camila Gomes

     Se Regina Pitoscia passou por poucas situações em que foi discriminada por ser mulher, a jornalista Camila Gomes afirma que nunca passou por esse tipo de situação em sua carreira. “Nunca me senti menosprezada por ser mulher, talvez haja, por exemplo, dentro do rádio, meio em que eu participo mais, ainda poucas vagas para mulheres. Mas não há definitivamente tratamento diferenciado, ou salário diferenciado com base na identidade de gênero. Eu sou mulher, lésbica, e não sinto preconceito neste sentido”. Ela também percebe um número cada vez maior de mulheres assumindo posições de líderes dentro do jornalismo.  “Resolvemos agarrar com todo amor estas posições, desenvolvendo bem, fazendo sempre mais que o esperado por nós. Eu vejo que nós estamos em representativa ascensão profissional”. 

     Camila reconhece a importância da meta 5.5 para o alcance da igualdade de gênero, mas não considera que as mulheres sejam a minoria dentro do jornalismo. Ela percebe mudanças muito significativas no que diz respeito ao empoderamento feminino dentro dos veículos de comunicação. “Elas não estão concentradas apenas dentro das redações, e sim em todos os setores da sociedade. É notável que as mulheres da área de comunicação sejam, por formação, pessoas mais antenadas e com sede de mudanças. Mas vejo estas mudanças em todos os setores. Nós, mulheres, cansamos de viver como espectadoras”.

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É notável que as mulheres da área de comunicação sejam, por formação, pessoas mais antenadas e com sede de mudanças. Mas vejo estas mudanças em todos os setores. Nós, mulheres, cansamos de viver como espectadoras.

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Teorias e práticas feministas para o alcance do empoderamento de meninas e mulheres

     O aumento do empoderamento feminino, as reinvindicações e as cobranças, os pensamentos e práticas femininas foram fundamentais para que a realidade das mulheres mudasse tanto. Se antes, como diz a autora feminista Betty Friedan, elas só podiam ser donas de casa, mães e esposas, hoje, elas podem ser formadoras de opinião. A carreira das mulheres, segundo a também teórica feminista Simone Beauvoir, era o casamento, pois elas eram sustentadas por seus respectivos maridos. As duas autoras compõem a chamada segunda onda do movimento feminista. 

Jornalista Monique Benati

     As vitórias alcançadas ao longo dos anos se estenderam ao setor da comunicação e, atualmente, jornalistas mulheres podem ocupar lugar de destaque dentro da profissão, embora as conquistas ainda não tenham sido suficientes e ainda haja muito pelo que lutar. A igualdade não chegou para todas as meninas e mulheres do planeta. Não são todas que têm acesso à educação, ao mercado de trabalho e aos seus direitos humanos básicos. Portanto, para a jornalista Monique Benati, que trabalha na Comunicação Social da Petrobras, para o empoderamento feminino global realmente se efetivar, são necessárias condições concretas, não só para que as mulheres alcancem grandes postos no mercado de trabalho, mas que também consigam trabalhar. “No âmbito geral, estamos falando de mulheres que não conseguem nem começar seu trabalho”. E quando a mulher consegue se colocar no mercado de trabalho, Monique percebe que ainda há uma carência muito grande de participação feminina nos postos de liderança, embora reconheça que houve avanços e conquistas nesse sentido.

     A ocupação de mulheres em cargos de liderança e de tomadas de decisões, para Monique, ainda não é significativa e está longe ser alcançada. “Eu lembro que na minha faculdade de Jornalismo, a maioria era mulher, mas hoje, a maioria não está em posição de liderança. Além disso, é possível perceber que o ambiente da faculdade de Comunicação é predominantemente feminino. Mas na TV, por exemplo, quem está em ascensão no Jornalismo, por exemplo, é um grupo predominantemente masculino. Não tenho dados, mas a percepção que eu tenho é de que a gente ainda tem um espaço muito grande para ocupar”.

     Monique reconhece que há muitos fatores para que isso aconteça, mas defende que as mulheres não estão acostumadas a ocupar o lugar de líderes de uma empresa ou veículo de comunicação devido aos valores machistas aos quais são submetidas. “Os mecanismos do patriarcado são tão fortes, e nós mulheres somos criadas sob uma carga cultural tão intensa, que acabamos nos acostumando à não posição de liderança. É novo para as mulheres esse lugar de busca. Muitas vezes, existe em nós até uma autocensura e um boicote interno”.

     Embora reconheça a importância de as mulheres alcançarem a liderança no mercado de trabalho, Monique também questiona a discussão acerca do empoderamento das mulheres nas redações, pois, segundo ela, muitas ainda não conseguem nem ter sua integridade física protegida, o que significa um grande atraso na garantia dos direitos humanos básicos das mulheres. “Ainda estamos discutindo sobre a Lei Maria da Penha, sobre violência doméstica, que com a pandemia aumentou absurdamente. Como falar de empoderamento? Estamos muitas pautas atrás. Não tem empoderamento nem em casa”.

“Eu lembro que na minha faculdade de Jornalismo, a maioria era mulher, mas hoje, a maioria não está em posição de liderança. Na TV, por exemplo, quem está em ascensão no Jornalismo é um grupo predominantemente masculino. Não tenho dados, mas a percepção que eu tenho é de que a gente ainda tem um espaço muito grande para ocupar”

Advogada Marilha Boldt: Pesquisadora dos direitos humanos das mulheres em nível mundial

     Não só Monique Benati percebe um grande atraso nas pautas que dizem respeito ao empoderamento feminino, principalmente quando se fala de violência contras as mulheres. Marilha Boldt - advogada, idealizadora do Projeto Superação da Violência Doméstica, Pesquisadora NIDH/FND, Conselheira CODIM/Rio e Colider Comitê de Combate a Violência no RJ das Mulheres do Brasil - também faz a mesma avaliação. Em um país, quando o índice de agressões contra as mulheres é elevado, significa que a desigualdade de gênero é muito grande, segundo explica Marilha. “Três mulheres morrem por dia no Brasil fruto do feminicídio. É o quinto país que mais mata por falta de políticas públicas, embora tenha a terceira melhor lei. A maioria delas é morta por seus parceiros. O homem ainda acha que pode mandar no corpo da mulher e que ela é um objeto dele”.

     Marilha também menciona o caso da Rússia, em que a violência contra a mulher é permitida por lei. “A legislação autoriza, uma vez por ano, o homem a agredir sua esposa. Se o próprio governo autoriza o homem a bater na mulher, imagine trata-la com equidade de gênero. Chega a ser surreal isso”. Além da violência, ela ressalta que outras questões tornarão o objetivo número 5 da Agenda 2030 muito difícil de ser alcançado. Segundo a advogada, o racismo ainda está muito presente na sociedade brasileira, o que já mostra que o empoderamento não irá acontecer de forma igualitária. “A igualdade, para ser efetiva, precisa ocorrer independentemente de raça, de credo, de qualquer coisa. E ela ainda não está nem perto de chegar em 2030, infelizmente”.

 

      Por isso, para mudar a realidade de meninas e mulheres, ela defende que a inciativa da Agenda 2030 da ONU precisa ser também de cada nação. “Precisa haver um compromisso de cada país, de cada cidade, de cada estado, em todas as esferas públicas, para que haja efetividade. Isso em todo o mundo. Um presidente vai precisar costurar muito bem com os municípios e estados para isso seja efetivo”.


 

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Três mulheres morrem por dia no Brasil fruto do feminicídio. É o quinto país que mais mata por falta de políticas públicas, embora tenha a terceira melhor lei. A maioria delas é morta por seus parceiros. O homem ainda acha que pode mandar no corpo da mulher e que ela é um objeto dele.

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Ouça o que diz a advogada Marilha Boldt:

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Agenda 2030 e o empoderamento feminino: uma análise sociológica, política e cultural

     Além de haver a necessidade de um trabalho em conjunto de diversos órgãos na busca pela igualdade de gênero, como explicou Marilha Boldt, o investimento na educação para a mudança de mentalidades também se mostra muito importante. Isso é o que pensa a famosa teórica feminista Bell Hooks. Em seu livro “O feminismo é para todo mundo”, ela defende a ideia de que todos, homens e mulheres, podem ter internalizados dentro de si os conceitos machistas. Por isso, segundo ela, é necessário educar meninos e meninas desde muito novos sem os valores patriarcais, que foram perpetuados durante muito tempo em todas as sociedades. Portanto, a autora escreve em sua obra que o feminismo é “um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”. Essa definição deixa implícito que qualquer pessoa pode ser sexista, independentemente do seu gênero. Para ela, todos precisam participar do processo de igualdade de gênero, combatendo dentro de si os pensamentos, valores e comportamentos patriarcais.

     Para a desconstrução deste machismo internalizado, o sociólogo Ronaldo Formiga compartilha da mesma ideia que a teórica feminista Bell Hooks. Ele defende que estudar igualdade de gênero nas escolas e faculdades é fundamental para o processo de emancipação feminina. “Desconstruir toda uma ideologia machista é uma tarefa que leva bastante tempo. Não é da noite para o dia e precisa de um trabalho mais profundo. Inclusive, atingir a própria sala de aula. Deveriam existir disciplinas que ilustrassem aos alunos como desconstruir a masculinidade tóxica e os ensinassem a respeitar o universo feminino e suas particularidades”. Por isso, ele avalia a Agenda 2030 da ONU para o alcance do empoderamento feminino global - o que, como consequência, também levará as mulheres a ocuparem locais de liderança e de tomadas de decisões dentro do jornalismo - como uma importante tentativa.

     Embora Ronaldo Formiga considere a inciativa da ONU válida, ele alerta para o risco de se generalizar determinadas demandas, sem levar em conta as particularidades culturais de cada sociedade. Cada lugar, como explica o sociólogo, tem níveis diferentes de acesso de meninas e mulheres a seus direitos. “Porque uma coisa são os direitos referentes às mulheres no Brasil, outra coisa é no Oriente Médio, outra é nos Estados Unidos, e por aí vai. De qualquer forma, é uma tentativa, é um começo, é importante. Qualquer inciativa nesse sentido é válida”. 

     Válida e necessária. A questão dos direitos femininos tem sido, de fato, cada vez mais debatida em nível internacional. Em 1948, houve a primeira medida global favorável às mulheres: Convenção Interamericana Sobre a Concessão dos Direitos Civis à Mulher. À medida que o movimento feminista começou a ganhar força na década de 1970, outras inciativas foram tomadas pelos Estados-Membros da ONU. Todo esse processo começou a ocorrer porque as mulheres, cansadas de serem colocadas no papel de donas de casa, de subordinação e de exclusão, decidiram lutar para mudar a sua realidade.

     As feministas foram fundamentais para a transformação social no que diz respeito ao empoderamento de meninas e mulheres. Portanto, Ronaldo Formiga avalia os pensamentos e práticas do feminismo como importantes aliados na busca pelos direitos das mulheres em nível mundial. “Ainda acho o movimento muito tímido. Está cada vez mais presente no nosso cotidiano, nas redes sociais, mas é pouco ainda. Precisa muito mais. Formar uma sociedade inclusiva, uma sociedade efetivamente democrática, é um trabalho em longo prazo. Não é um trabalho em curto prazo”. Por isso, ele defende que é preciso políticas públicas mais contundentes, que promovam a transformação das mentalidades e dos valores vigentes.


 

      Para as mudanças políticas acontecerem, a mudança cultural de cada país no que diz respeito ao machismo se faz necessária. É o que explica o cientista político Guilherme Carvalhido. “As políticas públicas, as estratégias governamentais e jurídicas dos países acompanham as culturas locais. Se estas vêm mudando a favor da igualdade de gênero, então as mudanças levarão um tempo menor para ocorrer. Mas se houver o contrário, as transformações vão levar mais tempo para acontecer”. Portanto, o cientista político avalia a igualdade total como algo bastante difícil de concretizar.

     Apesar de avaliar como importante a inciativa da ONU no que diz respeito ao empoderamento das mulheres contra todas as formas de machismo, subordinação e exclusão, Guilherme Carvalhido vê essa decisão como ambiciosa e difícil de alcançar. “Temos sociedades que não evoluíram – ou evoluíram muito pouco - desde o processo de emancipação feminina iniciado em meados do século XX. Desta forma, se pensarmos globalmente, que é a função da ONU, precisaremos de mais tempo para alcançar essa meta”. Segundo ele, as diferenças de gênero são questões culturais. “Será preciso bastante tempo para mudar, sobretudo quando os comandos políticos não estão direcionados para essa prática”.

      Não é só Carvalhido que avalia a meta 5.5 da ONU como algo difícil de alcançar. O também cientista político Marcio Salles pensa da mesma forma. “Há assimetrias entre países. Da mesma forma que há regimes democráticos de grande intensidade, há outros de baixa intensidade e que apresentam maiores dificuldades para o empoderamento feminino, além dos regimes autoritários de direita, que têm aversão pelos direitos das mulheres, posto que ainda sustentam visões antiquadas, machistas e patriarcais, em alguns casos, com legitimação ideológica de setores religiosos mais conservadores”, explica.

     Além do conservadorismo religioso mencionado por Marcio Sales, a questão racial no contexto brasileiro é outra dificuldade encontrada para que o objetivo número 5 da ONU seja concretizado. É o que explica o sociólogo João Raphael. Segundo ele, a igualdade de gênero ainda não irá acontecer para todas as meninas e mulheres até o ano de 2030, porque as mulheres negras, no Brasil, não são atingidas pelas mudanças do feminismo da mesma maneira que as mulheres brancas. A diferença racial dentro da pauta de equidade de gênero também é apontada pela famosa autora Bell Hooks, que integra a terceira onda do feminismo. Ela fala em seu livro "O feminismo é para todo mundo" acerca das diferenças de classe e cor dentro do movimento feminista. Segundo a teórica, as autoras da segunda onda do feminismo defendiam apenas os interesses das mulheres brancas de classe média alta, sobretudo dos Estados Unidos e da Inglaterra, sem levar em consideração as diferenças que havia entra elas e as mulheres pobres e negras.

 

     Se em outros tempos a pauta de igualdade de gênero e de empoderamento feminino não incluía todas as meninas e mulheres, hoje, por outro lado, as diferenças sociais e raciais são levadas em consideração pelas teóricas feministas contemporâneas. No entanto, João Raphael defende que as mudanças ainda são insuficientes para as mulheres negras. “Elas continuam sendo sub-representadas nos espaços de poder, na mídia, no jornalismo, nos cargos de chefia das grandes empresas. Portanto, ainda é uma parcela da população recebendo até quatro vezes menos do que um homem branco. Precisamos perceber que essa meta 5.5 da ONU, na verdade, deveria se contextualizar com relação às diferenças de raça no Brasil”.

     Ao falar a respeito da questão da igualdade de gênero no contexto brasileiro, João Raphael esclarece que a questão racial no país é apenas um exemplo de como a Agenda 2030 da ONU está longe de se concretizar. “Existe uma série de recortes que precisam ser feitos, principalmente quando a gente está falando de sociedades e culturas diferentes. Fiz um recorte da realidade brasileira, para podermos compreender de que maneira isso acontece”. Além de apontar estas diferenças como uma das dificuldades para o alcance do empoderamento feminino em nível internacional, João Raphael também destaca o fundamentalismo religioso, presente fortemente em determinadas sociedades, que coloca as mulheres em posições de subordinação. “Alguns países são dominados por pensamentos e crenças que limitam a existência das mulheres, que determinam com quem elas devem se casar, que permitem que o feminicídio aconteça. Esses são, portanto, recortes que também devemos fazer para compreender o mundo”. 

Para a autora Bell Hooks, o feminismo é "um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”. Esta definição foi escrita em seu livro "O feminismo é para todo mundo".

As diferenças raciais no Brasil e o forte fundamentalismo religioso presente em algumas sociedades são algumas das dificuldades apontadas pelo sociólogo João Raphael para o alcance do empoderamento feminino em nível global até o ano de 2030

As mulheres negras continuam sendo sub-representadas nos espaços de poder, na mídia, no jornalismo, nos cargos de chefia das grandes empresas. Precisamos perceber que essa meta 5.5 da ONU, na verdade, deveria se contextualizar com relação às diferenças de raça no Brasil

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Ouça o que diz o Sociólogo João Raphael:

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Há assimetrias entre países. Da mesma forma que há regimes democráticos de grande intensidade, há outros de baixa intensidade e que apresentam maiores dificuldades para o empoderamento feminino

O conservadorismo religioso de alguns setores da sociedade é apontado pelo cientista político Marcio Sales como uma dificuldade para o empoderamento de meninas e mulheres

O sociólogo Ronaldo Formiga alerta para o risco de se generalizar as demandas específicas de cada sociedade do planeta, em se tratando dos objetivos globais da Agenda 2030 da ONU

"Desconstruir toda uma ideologia machista é uma tarefa que leva bastante tempo. Não é da noite para o dia e precisa de um trabalho mais profundo. Inclusive, atingir a própria sala de aula. Deveriam existir disciplinas que ilustrassem aos alunos como desconstruir a masculinidade tóxica e os ensinassem a respeitar o universo feminino e suas particularidades”.

O cientista político Guilherme Carvalhido explica que as políticas públicas acompanham as culturais locais 

Jornalista Juliana Costa

     Além do fundamentalismo religioso mencionado pelo sociólogo João Raphael como uma dificuldade para o cumprimento da Agenda 2030 da ONU, há também o conservadorismo presente em determinados setores da sociedade, que foi apontado pelo cientista política Marcio Sales. A jornalista Juliana Costa, redatora na Lions Technology, também pensa da mesma forma. “Ainda existe uma parcela significativa da população mundial que possui um pensamento retrógrado e conservador. Pensar que haverá um avanço considerável em locais que não permitem, sequer, que mulheres saiam sozinhas nas ruas... isso é utópico demais”.

    Em sua experiência pessoal, ela conta que já deixou de ser contratada para uma vaga de emprego, pois julgaram que ela, por ser uma mulher, não podia voltar sozinha para casa de madrugada. “O horário seria perfeito para mim devido à minha rotina, estilo de vida e constante insônia. Sou noturna! Todavia, apenas homens eram escolhidos para o cargo porque eles consideravam mulheres frágeis demais para serem expostas ao perigo de andar de Uber de madrugada para voltar para casa. Logo, tive que me reduzir ao horário da tarde porque fui julgada fisicamente incapaz e mais vulnerável”. Na empresa em que ela trabalha atualmente, ela conta que havia ela e mais duas mulheres em meio a muitos homens. No entanto, ela conta que nunca teve sua inteligência e capacidade questionadas. “Ser jornalista mulher, ao menos na minha área, não é uma prática tão exaustiva”.

    

     Durante muitos anos, a atividade intelectual feminina foi negada. Vistas como inferiores física e intelectualmente, mulheres não eram vistas como capazes de exercer as mesmas funções profissionais dos homens. O jornalismo, um ofício de cunho intelectual, não era considerado lugar de ocupação para representantes do sexo feminino. A obrigação delas era ligada aos afazeres domésticos, à educação dos filhos e à subserviência aos seus respectivos maridos. Sem voz, sem poder de fala e de escrita, elas não poderiam jamais cogitar ocupar o cargo de um formador de opinião. Não podiam se enxergar capazes de pensar criticamente ou de questionar seu papel dentro da sociedade – esse era um direito que lhes era negado a partir do momento em que o acesso à educação era restrito ou até mesmo inexistente.

     Mas o mundo mudou. Se hoje as mulheres podem estudar e trabalhar, dispondo de maior autonomia, isso se deve aos anos de batalhas e reivindicações, com destaque para os movimentos feministas ao longo da história. No entanto, as conquistas não foram suficientes, e a luta continua. Em cargos de maior destaque, de chefia e de liderança, o número de mulheres ainda é inferior em relação aos homens.  Foi por esse e por outros motivos que os Estados-Membros da Organização das Nações Unidas (ONU) decidiram criar, no ano de 2015, a Agenda 2030. Para o alcance do desenvolvimento sustentável do planeta, 17 objetivos globais e suas respectivas metas foram traçados. Entre eles, há o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5, que visa ao empoderamento de todas as meninas e mulheres, e a meta 5.5, que pretende garantir a participação plena e efetiva delas e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública. 

     Como parte dos esforços de implementação destas ideias, houve a criação do “Pacto de Mídia: Dê um passo pela igualdade de gênero”. Este projeto quer aumentar o número de mulheres nos meios de comunicação, incentivando o empoderamento delas, para que sejam ocupantes da posição de líderes e para que sejam atuantes ativamente nas decisões dentro dos veículos de imprensa. A ONU Mulheres, por sua vez, objetiva criar parcerias com líderes de mídia internacionais, regionais e nacionais, para que se comprometam a defender as questões relativas ao gênero feminino por meio de divulgações de informações, quebrando estereótipos e preconceitos, de decisões editoriais e de práticas corporativas favoráveis às mulheres.  

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Ao clicar na imagem acima, você poderá acessar a Agenda de Desenvolvimento Sustentável

(Imagem: Pinterest)

Jornalista Regina Pitoscia

     Avanços podem ser notados em alguns setores. A diferença salarial colocada em pauta nos dias atuais e a questão da maternidade tratada de formada mais natural, sem que seja um empecilho para a contratação da mulher ou para a promoção dela dentro do trabalho, são duas das práticas corporativas favoráveis às mulheres notadas por Regina Pistoscia, colunista do Estadão. “Em muitas empresas, o fato de a mulher engravidar e ter um filho é considerado um problema, já que terá de se ausentar, pelo menos, quatro meses com a licença-maternidade. No meu caso, pude ficar seis meses quando tive meu filho, quatro da licença e mais dois meses de férias que tinha acumuladas”. No entanto, ela conta que se ausentar temporariamente do emprego sempre gera certa preocupação. “Será que vão manter o meu lugar? Mas não tive nenhum problema, reassumi normalmente minha função depois desse período, que já era de editora dos cadernos de finanças”.

    Regina conta que vê com frequência reportagens de economia e finanças, que é sua área de atuação, sobre temas relacionados às mulheres, como a diferença salarial em relação aos homens e o número reduzido de mulheres que estão no topo das empresas. “Isso gera questionamentos, discussões que tendem a aumentar a conscientização e reduzir a desigualdade”. Ela acredita que as mulheres estão cada vez mais alcançando o lugar que querem no mercado de trabalho. “Elas estão se impondo mais, reivindicando mais, cobrando mais das empresas”. 

 

     As cobranças e a reivindicações possibilitaram o alcance de cargos de liderança e destaque dentro do jornalismo por algumas mulheres, algo que, durante muito tempo, lhes foi negado - mulheres, antigamente, não podiam sequer estudar. Regina conseguiu boas posições profissionais. Ela conta que teve uma grande chance de crescimento dentro do jornalismo econômico quando foi convidada, em 1983, para ocupar uma vaga no caderno “Seu dinheiro”, do JT. “Eu não era a profissional mais indicada para ocupá-la, pois não entendia nada de finanças”. No entanto, isso não foi empecilho para Regina, que buscou aprender a respeito de economia. “Ocupei esse espaço estudando, me especializando, não me contentava com o bom, tinha de ser o ótimo, o excelente, mostrando que era capaz”.  

       Três anos depois, em 1986, Regina se tornou subeditora do “Seu Dinheiro”. “Era raro, naquela época, mulher em cargo de chefia”. No mesmo ano, ela foi convidada a participar de um programa matinal na Rádio Record, apresentado por Eli Correa, para explicar o que era o Plano Cruzado, no dia seguinte à edição da medida. Após sua participação, foi chamada pelo diretor da rádio a atuar diariamente naquele e nos demais programas da manhã. Além de ter alcançado bons cargos dentro do jornalismo, Regina também conta que foram raras as ocasiões em que se sentiu discriminada por ser mulher. Ela se lembra de apenas uma ocasião em isso ocorreu explicitamente. “Em 86, estreou na TV Record o programa São Paulo à Tarde, com apresentação de Sílvia Poppovic. O diretor havia convidado Celso Ming - meu chefe na época - para ser comentarista de economia. Como não podia assumir esse compromisso, Celso me indicou ao diretor, que relutou em aceitar uma mulher para a posição”. No entanto, essa discriminação não durou muito tempo. “Uma semana depois de iniciado o programa, o diretor me chamou em sua sala para dizer que estava me dado um aumento salarial, pois me considerava muito boa para o cargo”, explica.

     

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Regina Pitoscia afirma que passou por poucas situações em que se sentiu discriminada por ser uma mulher

(Foto: Arquivo Pessoal)

Jornalista Camila Gomes

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     Se Regina Pitoscia passou por poucas situações em que foi discriminada por ser mulher, a jornalista Camila Gomes afirma que nunca passou por esse tipo de situação em sua carreira. “Nunca me senti menosprezada por ser mulher, talvez haja, por exemplo, dentro do rádio, meio em que eu participo mais, ainda poucas vagas para mulheres. Mas não há definitivamente tratamento diferenciado, ou salário diferenciado com base na identidade de gênero. Eu sou mulher, lésbica, e não sinto preconceito neste sentido”. Ela também percebe um número cada vez maior de mulheres assumindo posições de líderes dentro do jornalismo.  “Resolvemos agarrar com todo amor estas posições, desenvolvendo bem, fazendo sempre mais que o esperado por nós. Eu vejo que nós estamos em representativa ascensão profissional”. 

     Camila reconhece a importância da meta 5.5 para o alcance da igualdade de gênero, mas não considera que as mulheres sejam a minoria dentro do jornalismo. Ela percebe mudanças muito significativas no que diz respeito ao empoderamento feminino dentro dos veículos de comunicação. “Elas não estão concentradas apenas dentro das redações, e sim em todos os setores da sociedade. É notável que as mulheres da área de comunicação sejam, por formação, pessoas mais antenadas e com sede de mudanças. Mas vejo estas mudanças em todos os setores. Nós, mulheres, cansamos de viver como espectadoras”.

Ouça o que diz Camila Gomes:

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É notável que as mulheres da área de comunicação sejam, por formação, pessoas mais antenadas e com sede de mudanças. Mas vejo estas mudanças em todos os setores. Nós, mulheres, cansamos de viver como espectadoras.

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Camila Gomes percebe que as mulheres estão cada vez mais alcançando posições de liderança dentro do jornalismo 

(Foto: Arquivo Pessoal)

 

(Imagem: Pinterest)  

Jornalista Barbara Cunha

     A jornalista Bárbara Cunha, da Agence France Press, pensa um pouco diferente de Camila. Embora reconheça mudanças dentro dos veículos de comunicação, ela defende que ainda há conquistas femininas que precisam ser alcançadas. “Trabalhei em um grande jornal no qual toda a editoria de economia tinha seis chefes e cinco eram mulheres. A editora-chefe também era uma mulher, em uma área por muitos considerada masculina. Entre os repórteres nessa editoria havia mais mulheres. No entanto, acho que nós ainda estamos atrás em termos de ocupação de cargos de liderança no geral”. Segundo Bárbara, repórteres mulheres ainda enfrentam outro problema: elas vivenciam situações de assédio que ocorrem durante a apuração de matérias. Ela já sentiu muito medo de estupro ao cobrir blocos de carnaval. “Eu até acredito que nos aceitem mais como mulheres que são repórteres, mas ainda há um abismo para nos olharem apenas como alguém que exerce uma profissão, tendo respeito suficiente para não nos assediar”.

     Além do medo de assédio e de estupro quando sai da redação para exercer seu trabalho nas ruas, Bárbara também vê outras posturas machistas sendo perpetuadas dentro das empresas e dos veículos de comunicação. “Ainda há sempre homens nos dizendo o que fazer e como fazer, quando na verdade muitas vezes já o sabemos”. Ela também nota que as mulheres costumam não ser validadas. “Somos interrompidas, corrigidas, duvidam da nossa capacidade e inteligência a todo o momento”.  Por situações como essas por que passam tantas mulheres como Bárbara que teóricas feministas defendem os direitos humanos femininos em suas publicações, livros e palestras.

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Ainda há sempre homens nos dizendo o que fazer e como fazer, quando na verdade muitas vezes já o sabemos. Somos interrompidas, corrigidas, duvidam da nossa capacidade e inteligência a todo o momento

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Bárbara Cunha defende que ainda há carência de mulheres na ocupação de cargos de liderança

(Foto: Arquivo Pessoal)

Teorias e práticas feministas para o alcance do empoderamento de meninas e mulheres

     O aumento do empoderamento feminino, as reivindicações, as cobranças, os pensamentos e práticas feministas foram fundamentais para que a realidade das mulheres mudasse tanto. No século XVIII, houve a participação ativa de mulheres na luta pelos direitos do cidadão, no contexto da Revolução Francesa. Elas atuaram tanto na linha de frente das revoltas quanto intelectualmente. Porém, a Declaração dos Direitos do Homem, que surgiu como um desdobramento das revoltas na França, não incluía as mulheres. Por isso, a francesa Olympe de Gouges redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã em 1791, e a inglesa Mary Wollstonecraft escreveu o “Reivindicação dos Direito da Mulher”. 

     No século seguinte, ocorreu a primeira reivindicação feminista registrada na história, conhecida como o movimento das sufragistas, que compõe a primeira onda do feminismo. O objetivo delas era conquistar os direitos jurídicos das mulheres, focando principalmente na conquista do poder político. Portanto, elas queriam garantir às mulheres da Inglaterra e dos Estados Unidos algo até então inédito na história: o voto em eleições.

    Após terem conquistado o direito de serem consideradas iguais aos homens perante a lei no século XIX, as mulheres perceberam que, na prática, a igualdade não acontecia. Por isso, as feministas do século XX, mais especificamente dos anos de 1960 até 1980, e que compõem a segunda onda do feminismo, questionaram as desigualdades culturais e políticas das mulheres. A discussão passou também a ser sobre o que é ser mulher e sobre o que é a suposta essência feminina, assim como o papel social da mulher e o suposto ideal de feminilidade desenhado pela sociedade da época.

    Se antes, como diz a autora feminista Betty Friedan, elas só podiam ser donas de casa, mães e esposas, hoje, elas podem ser formadoras de opinião. A carreira das mulheres, segundo a também teórica feminista Simone Beauvoir, era o casamento, pois elas eram sustentadas por seus respectivos maridos. As duas autoras compõem a chamada segunda onda do movimento feminista. Nessa fase, no entanto, a discussão era apenas acerca de mulheres brancas de classes privilegiadas dos Estados Unidos e da Inglaterra, sem levar em consideração as diferenças sociais e raciais.

    A autora da terceira onda do movimento feminista, Bel Hooks, mostra em seu livro “O feminismo é para todo mundo” que o grupo de mulheres em situação social de privilégio buscava sua própria libertação da dominação dos homens, mas, paralelamente a isso, mantinham subordinadas a elas e aos homens aquelas que eram menos favorecidas socialmente. As mulheres pobres, negras e indígenas não estavam recebendo a devida atenção na luta pela emancipação feminina.  Por isso, a discussão atual, em nível global, leva em consideração as diferenças existentes dentro do universo de mulheres, embora ainda tenham muitas mudanças que precisam ser alcançadas.

Livro lançado em 1949 por Simone Beauvoir, que é uma teórica da segunda onda do feminismo

(Imagem: Pinterest)  

Livro lançado em 1963 por Betty Friedan, que é uma teórica da segunda onda do feminismo

(Imagem: Pinterest)  

Livro lançado em 2000 por Bell Hooks, que é uma teórica da terceira onda do feminismo

(Imagem: Pinterest)  

ONU e as medidas internacionais pelos direitos humanos das mulheres

     Os movimentos feministas tiverem papel importante para que, nos dias atuais, existam medidas em nível global sendo tomadas pelos direitos humanos das meninas e mulheres. Em 1948, houve a primeira medida em nível internacional favorável às mulheres: Convenção Interamericana Sobre a Concessão dos Direitos Civis à Mulher. Em 1953, houve a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher. À medida que o movimento feminista começou a ganhar força na década de 1970, outras inciativas foram tomadas pelos Estados-Membros da ONU. Confira: 

1975:  I Conferência Mundial da Mulher sob o lema “Igualdade, Desenvolvimento e Paz” ;

1979: Convenção Para Eliminar Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher;

1980: II Conferência Mundial da Mulher sob o lema “Educação, Emprego e Saúde” ;

1985: III Conferência Mundial sobre a Mulher com tema central “Estratégias Orientadas ao Futuro, para o Desenvolvimento da Mulher até o Ano 2000”;

1995: IV Conferência Mundial sobre a Mulher com tema central “Ação para a Igualdade, o Desenvolvimento e a Paz”;

2010: Criação da ONU Mulheres;

2011: Convenção e Recomendação da OIT sobre Trabalho Decente para as Trabalhadoras e os Trabalhadores Domésticos;

2015: Criação da Agenda 2030 da ONU.

    Os princípios contidos nas principais normas internacionais relativas aos direitos humanos das mulheres são reafirmados na Agenda 2030 da ONU. Importantes avanços aconteceram no que diz respeito à igualdade de gênero, à garantia de direitos humanos e ao empoderamento de meninas e de mulheres. No entanto, ainda são insuficientes. Os principais desafios, segundo a ONU Mulheres, para o alcance da equidade de gênero são: o empoderamento econômico, o empoderamento político e a representatividade, a educação inclusiva e equitativa, a saúde integral e inclusiva, o enfretamento de todas as formas de violência, a institucionalidade, orçamento e políticas públicas e a interseccionalidade de gênero, raça e etnia. A grande mudança que precisa ser gerada nas sociedades é aumentar as políticas já implementadas, fazendo com que elas cheguem a todas mulheres. O trabalho da ONU Mulheres é feito junto aos governos e à sociedade civil, para que sejam formuladas leis, políticas e serviços necessários. Esse é um dos esforços internacionais a favor da defesa dos direitos das mulheres, visando o alcance da igualdade de gênero e ao empoderamento feminino em nível internacional.

Para mais informações a respeito das Conferências Mundiais das Mulheres, você pode clicar na imagem acima

(Imagem: Pinterest)

 

(Imagem: Pinterest)  

Jornalista Monique Benati

    As vitórias alcançadas ao longo dos anos se estenderam ao setor da comunicação e, atualmente, jornalistas mulheres podem ocupar lugar de destaque dentro da profissão, embora as conquistas ainda não tenham sido suficientes e ainda haja muito pelo que lutar. A igualdade não chegou para todas as meninas e mulheres do planeta. Não são todas que têm acesso à educação, ao mercado de trabalho e aos seus direitos humanos básicos. Portanto, para a jornalista Monique Benati, que trabalha na Comunicação Social da Petrobras, para o empoderamento feminino global realmente se efetivar, são necessárias condições concretas, não só para que as mulheres alcancem grandes postos no mercado de trabalho, mas que também consigam trabalhar. “No âmbito geral, estamos falando de mulheres que não conseguem nem começar seu trabalho”. E quando a mulher consegue se colocar no mercado de trabalho, Monique percebe que ainda há uma carência muito grande de participação feminina nos postos de liderança, embora reconheça que houve avanços e conquistas nesse sentido.

 

    A ocupação de mulheres em cargos de liderança e de tomadas de decisões, para Monique, ainda não é significativa e está longe ser alcançada. “Eu lembro que na minha faculdade de Jornalismo, a maioria era mulher, mas hoje, a maioria não está em posição de liderança. Além disso, é possível perceber que o ambiente da faculdade de Comunicação é predominantemente feminino. Mas na TV, por exemplo, quem está em ascensão no Jornalismo, por exemplo, é um grupo predominantemente masculino. Não tenho dados, mas a percepção que eu tenho é de que a gente ainda tem um espaço muito grande para ocupar”.

     Monique reconhece que há muitos fatores para que isso aconteça, mas defende que as mulheres não estão acostumadas a ocupar o lugar de líderes de uma empresa ou veículo de comunicação devido aos valores machistas aos quais são submetidas. “Os mecanismos do patriarcado são tão fortes, e nós mulheres somos criadas sob uma carga cultural tão intensa, que acabamos nos acostumando à não posição de liderança. É novo para as mulheres esse lugar de busca. Muitas vezes, existe em nós até uma autocensura e um boicote interno”.

     Embora reconheça a importância de as mulheres alcançarem a liderança no mercado de trabalho, Monique também questiona a discussão acerca do empoderamento das mulheres nas redações, pois, segundo ela, muitas ainda não conseguem nem ter sua integridade física protegida, o que significa um grande atraso na garantia dos direitos humanos básicos das mulheres. “Ainda estamos discutindo sobre a Lei Maria da Penha, sobre violência doméstica, que com a pandemia aumentou absurdamente. Como falar de empoderamento? Estamos muitas pautas atrás. Não tem empoderamento nem em casa”.

“Eu lembro que na minha faculdade de Jornalismo, a maioria era mulher, mas hoje, a maioria não está em posição de liderança. Na TV, por exemplo, quem está em ascensão no Jornalismo é um grupo predominantemente masculino. Não tenho dados, mas a percepção que eu tenho é de que a gente ainda tem um espaço muito grande para ocupar”

Ouça o que diz Monique Benati:

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Para Monique Benati, as mulheres não estão acostumadas à posição de liderança 

(Foto: Arquivo Pessoal)

Advogada Marilha Boldt: Pesquisadora dos direitos humanos das mulheres em nível mundial

     Não só Monique Benati percebe um grande atraso nas pautas que dizem respeito ao empoderamento feminino, principalmente quando se fala de violência contras as mulheres. Marilha Boldt - advogada, idealizadora do Projeto Superação da Violência Doméstica, Pesquisadora NIDH/FND, Conselheira CODIM/Rio e Colider Comitê de Combate a Violência no RJ das Mulheres do Brasil - também faz a mesma avaliação. Em um país, quando o índice de agressões contra as mulheres é elevado, significa que a desigualdade de gênero é muito grande, segundo explica Marilha. “Três mulheres morrem por dia no Brasil fruto do feminicídio. É o quinto país que mais mata por falta de políticas públicas, embora tenha a terceira melhor lei. A maioria delas é morta por seus parceiros. O homem ainda acha que pode mandar no corpo da mulher e que ela é um objeto dele”.

     Marilha também menciona o caso da Rússia, em que a violência contra a mulher é permitida por lei. “A legislação autoriza, uma vez por ano, o homem a agredir sua esposa. Se o próprio governo autoriza o homem a bater na mulher, imagine trata-la com equidade de gênero. Chega a ser surreal isso”. Além da violência, ela ressalta que outras questões tornarão o objetivo número 5 da Agenda 2030 muito difícil de ser alcançado. Segundo a advogada, o racismo ainda está muito presente na sociedade brasileira, o que já mostra que o empoderamento não irá acontecer de forma igualitária. “A igualdade, para ser efetiva, precisa ocorrer independentemente de raça, de credo, de qualquer coisa. E ela ainda não está nem perto de chegar em 2030, infelizmente”.

 

      Por isso, para mudar a realidade de meninas e mulheres, ela defende que a inciativa da Agenda 2030 da ONU precisa ser também de cada nação. “Precisa haver um compromisso de cada país, de cada cidade, de cada estado, em todas as esferas públicas, para que haja efetividade. Isso em todo o mundo. Um presidente vai precisar costurar muito bem com os municípios e estados para isso seja efetivo”.


 

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A advogada Marilha Boldt explica que o número elevado de violência contra as mulheres em um país indica uma grande desigualdade de gênero

Foto: Arquivo Pessoal)

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Há países em que a violência contra a mulher é permitida por lei, como é o caso da Rússia, segundo conta Marilha Boldt, o que dificulta o alcance do empoderamento feminino em nível mundial

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Três mulheres morrem por dia no Brasil fruto do feminicídio. É o quinto país que mais mata por falta de políticas públicas, embora tenha a terceira melhor lei. A maioria delas é morta por seus parceiros. O homem ainda acha que pode mandar no corpo da mulher e que ela é um objeto dele.

Ouça o que diz a advogada Marilha Boldt:

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Agenda 2030 e o empoderamento feminino: uma análise sociológica, política e cultural

     Além de haver a necessidade de um trabalho em conjunto de diversos órgãos na busca pela igualdade de gênero, como explicou Marilha Boldt, o investimento na educação para a mudança de mentalidades também se mostra muito importante. Isso é o que pensa a famosa teórica feminista Bell Hooks. Em seu livro “O feminismo é para todo mundo”, ela defende a ideia de que todos, homens e mulheres, podem ter internalizados dentro de si os conceitos machistas. Por isso, segundo ela, é necessário educar meninos e meninas desde muito novos sem os valores patriarcais, que foram perpetuados durante muito tempo em todas as sociedades. Portanto, a autora escreve em sua obra que o feminismo é “um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”. Essa definição deixa implícito que qualquer pessoa pode ser sexista, independentemente do seu gênero. Para ela, todos precisam participar do processo de igualdade de gênero, combatendo dentro de si os pensamentos, valores e comportamentos patriarcais.

     Para a desconstrução deste machismo internalizado, o sociólogo Ronaldo Formiga compartilha da mesma ideia que a teórica feminista Bell Hooks. Ele defende que estudar igualdade de gênero nas escolas e faculdades é fundamental para o processo de emancipação feminina. “Desconstruir toda uma ideologia machista é uma tarefa que leva bastante tempo. Não é da noite para o dia e precisa de um trabalho mais profundo. Inclusive, atingir a própria sala de aula. Deveriam existir disciplinas que ilustrassem aos alunos como desconstruir a masculinidade tóxica e os ensinassem a respeitar o universo feminino e suas particularidades”. Por isso, ele avalia a Agenda 2030 da ONU para o alcance do empoderamento feminino global - o que, como consequência, também levará as mulheres a ocuparem locais de liderança e de tomadas de decisões dentro do jornalismo - como uma importante tentativa.

     Embora Ronaldo Formiga considere a inciativa da ONU válida, ele alerta para o risco de se generalizar determinadas demandas, sem levar em conta as particularidades culturais de cada sociedade. Cada lugar, como explica o sociólogo, tem níveis diferentes de acesso de meninas e mulheres a seus direitos. “Porque uma coisa são os direitos referentes às mulheres no Brasil, outra coisa é no Oriente Médio, outra é nos Estados Unidos, e por aí vai. De qualquer forma, é uma tentativa, é um começo, é importante. Qualquer inciativa nesse sentido é válida”. 

     Válida e necessária. A questão dos direitos femininos tem sido, de fato, cada vez mais debatida em nível internacional. Isso começou a ocorrer porque as mulheres, cansadas de serem colocadas no papel de donas de casa, de subordinação e de exclusão, decidiram lutar para mudar a sua realidade. As feministas foram fundamentais para a transformação social no que diz respeito ao empoderamento de meninas e mulheres. Portanto, Ronaldo Formiga avalia os pensamentos e práticas do feminismo como importantes aliados na busca pelos direitos das mulheres em nível mundial. “Ainda acho o movimento muito tímido. Está cada vez mais presente no nosso cotidiano, nas redes sociais, mas é pouco ainda. Precisa muito mais. Formar uma sociedade inclusiva, uma sociedade efetivamente democrática, é um trabalho em longo prazo. Não é um trabalho em curto prazo”. Por isso, ele defende que é preciso políticas públicas mais contundentes, que promovam a transformação das mentalidades e dos valores vigentes.

      Para as mudanças políticas acontecerem, a mudança cultural de cada país no que diz respeito ao machismo se faz necessária. É o que explica o cientista político Guilherme Carvalhido. “As políticas públicas, as estratégias governamentais e jurídicas dos países acompanham as culturas locais. Se estas vêm mudando a favor da igualdade de gênero, então as mudanças levarão um tempo menor para ocorrer. Mas se houver o contrário, as transformações vão levar mais tempo para acontecer”. Portanto, o cientista político avalia a igualdade total como algo bastante difícil de concretizar.

     Apesar de avaliar como importante a inciativa da ONU no que diz respeito ao empoderamento das mulheres contra todas as formas de machismo, subordinação e exclusão, Guilherme Carvalhido vê essa decisão como ambiciosa e difícil de alcançar. “Temos sociedades que não evoluíram – ou evoluíram muito pouco - desde o processo de emancipação feminina iniciado em meados do século XX. Desta forma, se pensarmos globalmente, que é a função da ONU, precisaremos de mais tempo para alcançar essa meta”. Segundo ele, as diferenças de gênero são questões culturais. “Será preciso bastante tempo para mudar, sobretudo quando os comandos políticos não estão direcionados para essa prática”.

      Não é só Carvalhido que avalia a meta 5.5 da ONU como algo difícil de alcançar. O também cientista político Marcio Salles pensa da mesma forma. “Há assimetrias entre países. Da mesma forma que há regimes democráticos de grande intensidade, há outros de baixa intensidade e que apresentam mais dificuldades para o empoderamento feminino, além dos regimes autoritários, que têm aversão pelos direitos das mulheres, posto que ainda sustentam visões antiquadas, machistas e patriarcais, em alguns casos, com legitimação ideológica de setores religiosos mais conservadores”, explica.

     Além do conservadorismo religioso mencionado por Marcio Sales, a questão racial no contexto brasileiro é outra dificuldade encontrada para que o objetivo número 5 da ONU seja concretizado. É o que explica o sociólogo João Raphael. Segundo ele, a igualdade de gênero ainda não irá acontecer para todas as meninas e mulheres até o ano de 2030, porque as mulheres negras, no Brasil, não são atingidas pelas mudanças do feminismo da mesma maneira que as mulheres brancas.

         Se em outros tempos a pauta de igualdade de gênero e de empoderamento feminino não incluía todas as meninas e mulheres, hoje, por outro lado, as diferenças sociais e raciais são discutidas pelas teóricas feministas contemporâneas, como fez Bell Hooks em seu livro “O feminismo é para todo mundo”. Entretanto, o sociólogo João Raphael defende que as mudanças ainda são insuficientes para as mulheres negras. “Elas continuam sendo sub-representadas nos espaços de poder, na mídia, no jornalismo, nos cargos de chefia das grandes empresas. Portanto, ainda é uma parcela da população recebendo até quatro vezes menos do que um homem branco. Precisamos perceber que essa meta 5.5 da ONU, na verdade, deveria se contextualizar com relação às diferenças de raça no Brasil”.

     Ao falar a respeito da questão da igualdade de gênero no contexto brasileiro, João Raphael esclarece que a questão racial no país é apenas um exemplo de como a Agenda 2030 da ONU está longe de se concretizar. “Existe uma série de recortes que precisam ser feitos, principalmente quando a gente está falando de sociedades e culturas diferentes. Fiz um recorte da realidade brasileira, para podermos compreender de que maneira isso acontece”. Além de apontar estas diferenças como uma das dificuldades para o alcance do empoderamento feminino em nível internacional, João Raphael também destaca o fundamentalismo religioso, presente fortemente em determinadas sociedades, que coloca as mulheres em posições de subordinação. “Alguns países são dominados por pensamentos e crenças que limitam a existência das mulheres, que determinam com quem elas devem se casar, que permitem que o feminicídio aconteça. Esses são, portanto, recortes que também devemos fazer para compreender o mundo”. 


 

Para a autora Bell Hooks, o feminismo é "um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”. Esta definição foi escrita em seu livro "O feminismo é para todo mundo".

(Imagem: Pinterest)  

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As mulheres negras continuam sendo sub-representadas nos espaços de poder, na mídia, no jornalismo, nos cargos de chefia das grandes empresas. Precisamos perceber que essa meta 5.5 da ONU, na verdade, deveria se contextualizar com relação às diferenças de raça no Brasil

 

(Imagem: Pinterest)  

 

(Imagem: Pinterest)  

As diferenças raciais no Brasil e o forte fundamentalismo religioso presente em algumas sociedades são algumas das dificuldades apontadas pelo sociólogo João Raphael para o alcance do empoderamento feminino em nível global até o ano de 2030

(Foto: Arquivo Pessoal)

Ouça o que diz o Sociólogo João Raphael:

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Há assimetrias entre países. Da mesma forma que há regimes democráticos de grande intensidade, há outros de baixa intensidade e que apresentam mais dificuldades para o empoderamento feminino

O cientista político Marcio Sales aponta o conservadorismo religioso de alguns setores da sociedade como uma dificuldade para o empoderamento de meninas e mulheres

(Foto: Arquivo Pessoal)

Quando se fala em alcançar o objetivo de número 5 da Agenda 2030 da ONU, o sociólogo Ronaldo Formiga alerta para o risco de se generalizar as demandas específicas de cada sociedade 

(Foto: Arquivo Pessoal)

"Desconstruir toda uma ideologia machista é uma tarefa que leva bastante tempo. Não é da noite para o dia e precisa de um trabalho mais profundo. Inclusive, atingir a própria sala de aula. Deveriam existir disciplinas que ilustrassem aos alunos como desconstruir a masculinidade tóxica e os ensinassem a respeitar o universo feminino e suas particularidades”.

O cientista político Guilherme Carvalhido explica que as políticas públicas acompanham as culturais locais e as mudanças de mentalidade

(Foto: Arquivo Pessoal) 

Jornalista Juliana Costa

     Além do fundamentalismo religioso mencionado pelo sociólogo João Raphael como uma dificuldade para o cumprimento da Agenda 2030 da ONU, há também o conservadorismo presente em determinados setores da sociedade, apontado pelo cientista política Marcio Sales como uma dificuldade para o alcance do empoderamento feminino em nível mundial. A jornalista Juliana Costa, redatora na Lions Technology, também pensa da mesma forma. “Ainda existe uma parcela significativa da população mundial que possui um pensamento retrógrado e conservador. Pensar que haverá um avanço considerável em locais que não permitem, sequer, que mulheres saiam sozinhas nas ruas... isso é utópico demais”.

    Em sua experiência pessoal, ela conta que já deixou de ser contratada para uma vaga de emprego, pois julgaram que ela, por ser uma mulher, não podia voltar sozinha para casa de madrugada. “O horário seria perfeito para mim devido à minha rotina, estilo de vida e constante insônia. Sou noturna! Todavia, apenas homens eram escolhidos para o cargo porque eles consideravam mulheres frágeis demais para serem expostas ao perigo de andar de Uber de madrugada para voltar para casa. Logo, tive que me reduzir ao horário da tarde porque fui julgada fisicamente incapaz e mais vulnerável”. Na empresa em que ela trabalha atualmente, ela conta que havia ela e mais duas mulheres em meio a muitos homens. No entanto, ela conta que nunca teve sua inteligência e capacidade questionadas. “Ser jornalista mulher, ao menos na minha área, não é uma prática tão exaustiva”.

    

Em sua atual empresa, mesmo trabalhando em meio a muitos homens, Juliana Costa afirma que nunca teve sua inteligência questionada

(Foto: Arquivo Pessoal)

A jornalista Juliana Costa já deixou de ser contratada para uma vaga de emprego apenas por ser mulher

(Foto: Arquivo Pessoal)

"Ainda existe uma parcela significativa da população mundial que possui um pensamento retrógrado e conservador. Pensar que haverá um avanço considerável em locais que não permitem, sequer, que mulheres saiam sozinhas nas ruas... isso é utópico demais"

Ouça o que diz  Juliana Costa:

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Jornalista Raphaela Quintans

   Se Juliana nunca foi questionada apenas por ser uma mulher em seu emprego atual, a jornalista Raphaela Quintans, que atua na produção de conteúdos na Associação do Comércio Farmacêutico do Rio de Janeiro, percebe que não é muito ouvida pelos colegas de trabalho. “Por mais que eu tenha tido chefes mulheres, ainda precisamos escutar a palavra final da boca de um homem. Muitas vezes, ao dar uma opinião, sinto que não sou tão escutada por ser mulher e ainda jovem. É difícil lidar com isso, porque preciso constantemente mostrar meu valor, e que é válido ouvir o que tenho a dizer”. Por isso, ela conta que precisa lutar para conseguir se posicionar por ela e por todas as meninas e mulheres. “Preciso tirar forças da luta de todas nós, mas faço isso porque sei que é necessário e sei que as próximas meninas poderão ter melhores condições de trabalho. Além disso, confio muito no trabalho que desenvolvo e sei que por meio dele posso contribuir para uma sociedade melhor. Tenho muita fé no feminismo e no jornalismo”.

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Raphael Quintans acredita muito no feminismo e no jornalismo para que a realidade das mulheres possa mudar para melhor

(Foto: Arquivo Pessoal)

Por mais que eu tenha tido chefes mulheres, ainda precisamos escutar a palavra final da boca de um homem. Muitas vezes, ao dar uma opinião, sinto que não sou tão escutada por ser mulher e ainda jovem. Preciso constantemente mostrar meu valor, e que é válido ouvir o que tenho a dizer

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A jornalista Raphaela Quintans sente que os seus pensamentos e opiniões não são validados apenas por ela ser uma mulher

(Foto: Arquivo Pessoal)

     A jornalista Raphaela Quintans mencionou que acredita muito no feminismo para que a realidade das mulheres realmente mude. E, de fato, as lutas feministas, as produções acadêmicas, a educação em escolas e faculdades precisam continuar, pois são fundamentais para que a igualdade de gênero e o empoderamento feminino possam realmente se concretizar em nível internacional, mesmo que não seja exatamente no ano de 2030.

    Em primeiro lugar, é preciso garantir a segurança física, moral, psicológica e patrimonial, pois não se pode falar em melhores condições no mercado de trabalho quando elas não têm acesso ao que é essencial. Além disso, é necessário levar em consideração a desigualdade existente dentro do próprio universo de mulheres, pois há diferenças de classe e raça que não devem ser ignoradas Mulheres pobres, negras e indígenas têm um acesso inferior, quando comparado às mulheres brancas de classe média alta, aos postos de liderança e de tomada de decisão. Portanto, tudo isso precisa ser levado em consideração para que o objetivo número 5 da ONU, e a sua respectiva meta 5.5, possa realmente atingir a todas. As particularidades de cada nação precisam ser levadas em consideração, pois os direitos femininos variam de país para país, de estados para estado e de município para município. Pensar de forma global é levar em consideração as culturais locais de cada lugar.

      Para as mudanças se efetivaram, as mentalidades precisam mudar, pois, assim, a política também irá se modificar. Portanto, as medidas voltadas para educar meninos e meninas sem os valores patriarcais, modificando, então, a realidade social e garantindo os direitos humanos básicos das mulheres por meio de políticas públicas efetivas são importantes para que o empoderamento feminino no jornalismo – e em todas as áreas – realmente possa acontecer. Não apenas isso: todas as inciativas da Organização das Nações Unidas em conjunto com os governos poderão garantir que, em algum momento, o planeta se torne um lugar justo, solidário, igualitário e inclusivo para todos, homens e mulheres.

Grande reportagem multimídia apresentada ao Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo.

Estudante: Letícia Montilla da Silva Braga

Orientadora: Prof. Doutora Maristela Fittipaldi

Por Letícia Montilla da Silva Braga